Carioca e o caminho Tape Aviru.

"Cerca de oito dias antes da partida para a guerra, um navio francês tinha surgido a oito milhas dali, em um porto que os portugueses chamam Rio de Janeiro e, na língua dos selvagens, Iteronne (Niterói)."   Hans Staden (Viagem ao Brasil, 1557, cap.XL). Verifica-se por aqui que o nome Iteronne é simples alteração de Iteron ou Iteró, que quer dizer "baía, enseada."

“Cerca de oito dias antes da partida para a guerra, um navio francês tinha surgido a oito milhas dali, em um porto que os portugueses chamam Rio de Janeiro e, na língua dos selvagens, Iteronne (Niterói).”
Hans Staden (Viagem ao Brasil, 1557, cap.XL). Verifica-se por aqui que o nome Iteronne é simples alteração de Iteron ou Iteró, que quer dizer “baía, enseada.”

 Percebemos que a denominação “Fluminense” (nome dado a todo cidadão nascido no estado do Rio de Janeiro) merece uma atualização visto que, posteriormente a ‘descoberta’ do Rio de Janeiro foi observado que o Rio, ao qual refere-se o nome da cidade, tratava-se na verdade de uma Baía.

 Procurando acobertar este erro que deu-se no momento de batismo da cidade, nomearam a então enseada de Baía da Guanabara. O que é um contrasenso já que o termo Guanabara vem do tupy Iguaá-Mbara e significa “enseada do rio com o mar.”

 O nome correto, dado pelos nativos a região, era uma variação do termo Niterói, como vemos no relato de Hans Staden, ao lado.

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 A tradução desses pequenos erros históricos são cruciais para compreender o modo de vida segundo o qual a sociedade moderna vem se desenvolvendo e se re-inventando. O entendimento que se tem dos símbolos é fundamental para decidir as datas comemorativas, os rituais religiosos e as celebrações de um povo. O significado das palavras que se pronuncia são absolutamente fundamentais para a compreensão de mundo do indivíduo que as absorve.

 Por isso, num levantamento etimológico, busquei o significado original de termos tupy-guarany que foram incorporados, de maneira singular, no vocabulário brasileiro.

tamoios

 Tentando elucidar paradigmas centrais do modo de ocupação portuguesa e o ritmo de vida que, posteriormente, assumiu a sociedade brasileira, destaco a tradução mítica de nosso título principal: Carioca. Nome dado pelos Tupinambás, no início do século XVI, à primeira habitação do homem branco no Rio de Janeiro.

O significado tradicionalmente reconhecido pela língua portuguesa é o que simboliza Carioca como uma junção de dois termos. Cari- homem branco e Oca- casa, sendo Carioca- Casa do homem branco.

Mas esse vocábulo interpretado pela visão Guarany tem mais profundidade. É, na verdade, parte de um grande mito que remonta a época das migrações indígenas pelo continente.

Há milênios os grupos tupi caminhavam pela América guiados por seus profetas Caraí (ou Cari) em busca de Yv´y Marãe – a terra sem males – um similar do paraíso na mitologia Guarany.

peabiruPercorreram, desde o interior da Amazônia até a costa sul do Brasil um caminho mítico denominado por eles Tape Aviru (caminho de grama amassado), que seguia em direção ao Sol Nascente (Nhandé Rovái) e era guiado pelas estrelas da Via Láctea.

Quando chegaram a costa brasileira, e viram o mar, os Tupi sabiam que haviam chegado ao paraíso, pois assim contavam as lendas antigas.

Existem, obviamente, diferentes interpretações para este mito. Mas, de um modo geral, o que se leva a crer é que os Tupis acreditavam que o Paraíso ficava atrás do oceano, onde morava o Sol e todos os seus antepassados. E onde só se podia chegar de maneira incorpórea. Através de viagens transcendentes do Espírito.

Quando os Europeus chegaram navegando sobre as águas, vindos de Nhande Rovái, os tupinambás, que habitavam o entorno da baía de Iterõe, chamaram-os de Carí, os xamã-guerreiros, pois achavam que os Deuses tinham chegado à Terra.

A CONFEDERAÇÃO TAMOIO.

No entanto, como podemos ver em quase todos os livros de história, os europeus não enxergaram o povo Tupi da mesma forma que estes os enxergavam. E nem respeitaram o território sagrado Tupi-Guarani da mesma maneira que estes respeitavam.

 Aproveitaram a simpatia e toda a reverência do povo tupi para fazerem deles seus escravos. E com toda a força passaram a empreender na América negócios lucrativos, seja ele qual fosse.

Desembarque de Cabral em Porto Seguro (estudo), óleo s/ tela. Oscar Pereira da Silva, 1904.

Desembarque de Cabral em Porto Seguro (estudo), óleo s/ tela. Oscar Pereira da Silva, 1904.

Em algumas poucas décadas, já desapontados, os tupinambás passaram a perceber que não eram boas as intenções dos colonizadores, pois não eram bons no trato com a terra e nem respeitavam nem preocupavam-se com a saúde dos nativos.

Foi convocada assim a Confederação dos Tamoios (que quer dizer “o velho, o mais antigo”). Uma reunião de todas as tribos antigas da América com o objetivo de proteger a terra e os povos que dela cuidavam.

A força reunida pela confederação foi tamanha que em pouco tempo a colônia portuguesa se rendeu. Não havia como lutar contra tantos nativos bravos, armados e com profundos conhecimentos da região.

A PAZ DE IPEROIG

Carioca século XVIO primeiro tratado de paz do Brasil que foi negociado pelos jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta durou muitos anos até que a colônia portuguesa no Brasil estivesse reestabelecida. Assim, munidos de um número maior de homens e de um maior poderio bélico, retomaram a guerra.

Os Tamoios poderiam ter reagido e com sorte teriam conseguido expulsar os colonizadores de seu território não fosse uma traição inesperada. O indio Araribóia, interessado em privilégios prometidos pelos portugueses explanou-lhes os planos de seus conterrâneos Tamoios.

No ano de 1567 foram dizimados os integrantes da Confederação Tamoio e oficialmente fundada a cidade do Rio de Janeiro. Ao indío Araribóia foi dado como presente a região onde fica hoje a cidade de Niterói. O resto é História.

A ESTÁTUA DE CUAUHTEMOCCuahutemoc

Durante a Confederação Tamoio, nativos de toda a América percorreram o continente para ajudar os Tupinambás na expulsão dos colonizadores. A estátua de Cuauhtemoc, localizada próxima da foz do Rio Carioca, no Aterro do Flamengo, mostra um guerreiro Maya apontando sua flecha na direção da Baía de Guanabara. 

Alguns julgam que sua flecha aponta para outra estátua, a do traidor Araribóia, que está localizada em frente a estação das barcas, em Niterói.

CRISTO REDENTOR – CORCOVADO.

Algumas pessoas dizem erroneamente que o monumento foi um presente da França para o Brasil, quando na verdade a estátua do Cristo Redentor foi erigida a partir de doações de fiéis de arquidioceses e suas paróquias por todo o país, com o projeto de autoria e chefia do engenheiro Heitor da Silva Costa. Da França vieram apenas uma réplica de 4 metros feita de pequenos moldes, assim como modelos das mãos feitas pelo colaborador Landowski. 

CorcovadoA obra, que durou 5 anos, foi iniciada no ano de 1926 e concluída em 1931. Famosa por poder ser vista de quase todos os bairros da cidade, na posição em que se encontra, Cristo está eternamente a olhar pro Leste – Nhande Rovái, a Casa do Sol Nascente – assim como os profetas Caraí, sempre a caminho de Yv´y Marãe.

 

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